quinta-feira, 5 de setembro de 2013
AVÔ
[L]evo a
vida tranquila do modo mais simples e digno que poderia levar.
Aposentado, cuido de minha família de todas as maneiras que ao meu
alcance estão. Compro pão de manhã, levo a Velhinha para ir ao banco,
arrumo o chuveiro que queimou, lavo a laje e limpo os cachorros, busco
meu sobrinho na escola, faço as compras do mês e tantas outras coisas
mais. Claro, o baralho com os amigos não
pode faltar, junto àquela cervejinha e uns petiscos. Já vivi tanto, são
tantas histórias... Sempre bem humorado estou, e com meus cabelos “bem
arrumados” ando por ai dando uma ciranda. Ah a vida! Um acidente ocorre e
muda todo o curso desta preciosidade indescritível. Fico tetraplégico.
Não! Por quê? Sei que tudo o que se planta é o que se colhe, mas o que
fizera eu para colher um fruto tão lúgubre? Antes eu tinha tantas
preocupações... Hoje a minha maior preocupação é acomodar-me naquela
cama de hospital sem que a dor assole os meus músculos, meus ossos. Não
posso ajudar mais ninguém! E agora? Apenas sou ajudado. Minha vida
acabou? Talvez não só a minha, minha Velinha. Uns dias atrás fui ao
oftalmologista ver estas vistas. Ele me examinou. Disse a ele que
aumentasse o grau de meus óculos, para que eu pudesse enxergar melhor o
único modo de “entretenimento” que ainda me resta. A televisão, e nela o
futebol e a novela das nove. Disse que não aumentaria, que por enquanto
permanecesse com os atuais. O médico chamou minha filha para conversar
um minutinho. Meu sobrinho que guiava a cadeira me dirigiu até a saída
do consultório. Esperamos uns dez minutos. Ela saiu da sala e disse,
sorrindo, que o médico perguntou um pouco sobre meu acidente. Achei
estranho, pois ele já não conhecia a história? Bom, deixe pra lá. Ontem
assisti ao jogo da seleção com uma dificuldade maior do que antes
assistia. Hoje a novela das nove está um pouco mais escura do que ontem.
Senhor, o que para mim antes era uma preciosidade, hoje é um martírio
interminável. Até quando terei de colher deste fruto agoniante?
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Linda a homenagem! Triste os obstáculos que o destino nos guardam. Força pra família e seu avô. E que de tudo se tire aprendizado.
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