[V]im buscar um copo d’água, e como quem não quer nada observo da janela a garoa rala que atravessa os raios de luz do poste. Hoje no céu não há estrelas. Quem está lá fora? Uma enfermeira indo para seu plantão, uma senhora voltando da igreja, um estudante retornando para casa? Quem lá está?
Uma criança olhando para aquele foco amarelo... Assusta-se com
a buzina do carro que passa. O silêncio da noite chegou mais cedo, o vento
tênue que bate em seus braços faz com que eles se cruzem de modo a esfrega-los com as
mãos. Desejara uma cama naquele momento, talvez estar dentro do carro que passou, em direção a sua casa. Mas qual casa, quando esta só existe quando dorme?
Tomar um banho e se enrolar de baixo das cobertas, depois da refeição, é utopia
para ela. O mundo dos sonhos é subterfúgio, quando em século XXI gastam-se
milhões para realizar eventos esportivos ou luxurias tais, e tantas pessoas
como ela estão à margem da sociedade. Não querem carros, viagens, televisão,
nem tanto dinheiro; apenas o necessário para viver, subsistir. Condená-las a
vida é desleal. Enquanto uns preferem viver ilusões à realidade, muitos perecem
por coisas banais e simples. Aquela criança volta a olhar para o foco.
Apago a luz da cozinha, deixo o copo na pia e volto a
dormir, aliás, amanhã começa tudo de novo.
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