[H]oje fui ao médico. Fui pra ver se ele me receitava algum remédio para os meus enjoos: eles não param! Ele perguntou há quanto tempo estava assim. Eu disse que desde quarta feira, já fazem uns dias. Não, não tive diarreia e nem febre, só isso mesmo. Pediu, sério, para que eu me deitasse na maca, pegou um aparelho, passou um gelzinho e botou em minha barriga. O médico perguntou se eu já sabia. Sabia? Do quê? Da gravidez, de 3 meses.
Perdi o chão por alguns segundos, não sentia o ar a minha volta ou minha pele encostada no papel da maca. Meu coração acelerou, o frio na barriga foi inevitável. Voltei, tentando digerir a ideia e ao mesmo tempo vomitando-a! Como assim, gravidez? É, isso mesmo Moça, parabéns! Parabéns?! Não posso ter esse bebê, não tenho condições de mantê-lo, dar-lhe uma vida, vida que não tive. Vou abortar!
Não, Moça, em nosso país isso não é permitido, é crime. Além disso, aborto é pecado! Sabe o que é, Doutor? Meu útero é laico! A lei, não comprará comida, fraudas, remédios e os utensílios necessários para meu Bebê. Tampouco a igreja! Lá em casa somos em 7. Meu pai está preso, minha mãe gravida e o resto são meus Irmãos. O espaço existente lá já não é. Colocar mais um em lugar nenhum?! Dar a alguém o que não se tem?! Não posso!
Cresci assim: vendo meus Irmãos mais velhos no tráfico, os mais novos se enveredando para o crime, meu pai preso por roubo e mamãe... Ela fica em casa esperando o não-sei-o-que. Tento trabalhar, ser alguém na vida! Vendo bala no farol. Daí consigo ajudar em casa, comprando alguma coisinha pra comer. Não quero isso para o meu filho, seria condena-lo a viver! Viver assim tem sido um não-viver, menos que subsistir. Não, não quero que ele subsista!
Vou procurar uma clínica dessas que a gente acha no centro da cidade. Com mais uns meses de farol consigo dinheiro para abortar. Abortar... Espero que dê tudo certo. E se não der? Não, tem que dar!
O médico, depois de ouvir tudo - atento aos meus olhos -, nada disse. Abaixou a cabeça, prescreveu Dramin, de oito em oito horas. Agradeci e me retirei.
Sou a Moça do Útero Laico, e tenho 15 anos