[E]squeço-me, muitas vezes, de dar atenção para gestos que são infimamente simples. Gestos tão bobos, banais e até fúteis, mas de total relevância para vida.
Como dar um beijo na testa de meu avô, desejando-lhe uma boa noite. Ou como sentar-se a mesa com minha mãe na hora do jantar (geralmente o momento mais oportuno da rotina que sempre nos condena), com a família, para falar um pouco dos acontecimentos do dia a dia, do ônibus lotado, do esquecido guarda chuvas que fora esquecido no serviço, da programação do dia seguinte, do jogo de domingo ou de quaisquer outros assuntos corriqueiros.
Não esqueço-me, quase nunca, de estudar, trabalhar, entregar, buscar, levar, pegar, correr, comer, andar, ligar, conectar, em suma, verbalizar. As tantas ações do cotidiano me impõem obrigações que me fazem esquecer do simples, do elementar. Escravo de verbos (ações)? Como sou tolo. Acorde! Não se esqueça de viver (malditos verbos), viver aquilo que é simples, sem relevância para o "politicamente correto" ou para o comum alheio. Quero acordar sem hora pra levantar, curtir -da laje de casa- o céu estrelado com ela (falando sobre coisas sem importância e desconhecidas), elogiar a comida de minha mãe, chegar em casa e dar um abraço em meu pai, dizendo que o amo, sair com os amigos para rir do passado, do presente e do futuro.
Esqueço-me de tanto, de muito, do simples. Esqueço-me até de que o tempo não para, não ensaia, não espera minhas preocupações, tampouco minha falta de atitude para com a vida. Só não esqueço daquilo que não me faz viver.