[M]eu pescoço virou escravo! Quando menos percebo está se curvando 60° graus para este objeto que de cá escrevo. Atendo suas necessidades sempre que chama, sempre que vibra. Quando não, dou uma olhadinha, rolo uma página, vejo uma foto, um comentário - tudo tipicamente genérico... Estou aqui, na roda com os amigos, com a namorada e em mais três grupos aleatórios; sou onipresente! Patético.
Sacio minhas necessidades fisiológicas multuamente com sua necessidade de me envolver, de me roubar a noção do tempo real. Não obstante, tento, sempre que possível, responder quem está pessoalmente comigo enquanto digito ou racionalizo o que alguém disse. Quanta informação! Pode repetir o que disse, por favor?
O metrô é um dos lugares que me fascina! No vagão, 85% dos pescoços estão curvados em 60° graus, pois dos 15% "livres" 5% leem livros, 7% conversam entre si (presencialmente) e 3% são uma ou outra senhoras aguardando o destino. Deparo-me com um mundo cada vez mais homogêneo. Triste.
Não me isento de tais atitudes, tampouco me vejo livre desta tendência que envolve o mundo. Mas o nosso maior defeito é ser fraco, leitor. Revogar momentos presentes para atender, frequentemente, momentos inexistentes, falsos. A luta não se faz contra o que rege este objeto, e sim contra sua imaturidade ao utilizá-lo. Curvar-se 60° graus a isto, a nada, prova minha impotência perante mim mesmo.
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